
Categoria: Artigos
Data: 17/01/2025
Fé não é euforia nem é o meio para algum fim terapêutico, assim como Deus não é um mecanismo pelo qual alcançamos a autorrealização.
A verdadeira religião não é um método de transcendência pessoal ou emocional. Não é uma coisa que nos traga conforto e segurança nem é uma pomada calmante. Quando concentramos nossa esperança nessas coisas, sempre ficaremos decepcionados. Aceitar e suportar essa verdade é algo difícil, mas que fez deste mundo um lar melhor para mim.
Então, de que serve a presença de Deus em nossa vida, se ela nem sempre nos dá essa sensação de prosperidade emocional? Por que dizer “sim” à fé em Jesus?
A fé, como hoje eu a entendo, é simplesmente a resposta do coração ao reconhecimento daquilo que é verdadeiro. É dizer sim ao que sabemos ser certo, bom e santo. Nosso relacionamento com Deus não é transacional, como se fosse uma troca divina de bens e serviços. O cristianismo é mais como um caminho ou uma estrada. É uma maneira de caminhar e um modo de ser, não apenas um modo de pensar ou de sentir. A presença de Deus é boa porque ilumina esse caminho e ajuda o mundo a fazer sentido.
Deus nos chama para coisas difíceis nesta vida. E há um propósito em nossa dor, mas não em um sentido utilitário — como se o sofrimento fosse o otimizador espiritual supremo. A maioria de nós já está familiarizada com a frase “Deus está mais preocupado com a sua santidade do que com a sua felicidade”, mas e se a infelicidade for em si importante?
Acredito que a infelicidade pode iluminar nossa vida, oferecendo-nos sabedoria e clareza sem igual. Às vezes, a infelicidade é a maneira do coração nos dizer que algo está errado ou precisa ser resolvido. Mas, às vezes, é a maneira de Deus nos lembrar do que é bom e verdadeiro — de como as coisas deveriam ser em nosso mundo.
Desde que deixamos o Éden, a maldição do pecado nos separou da intenção original de nossa criação. Temos a eternidade em nossos corações (Eclesiastes 3.11) — e ainda assim somos finitos em nossa força, não sabemos todas as respostas e nossa carne é mortal. Nossa alma anseia pelo que deveria ser, enquanto nosso corpo vive na dura realidade daquilo que é.
A tristeza faz parte da condição humana. A inquietação é uma resposta apropriada, até mesmo justa, ao que está quebrado. Se você luta contra decepções, frustrações ou expectativas, não é porque seja espiritualmente imaturo, mas porque estamos vivendo após a Queda. A existência sempre parecerá uma frase incompleta, uma fome que nunca é totalmente satisfeita, até que Cristo volte em glória e inaugure a sua nova criação.
Seja por causa do nosso pecado, da nossa fragilidade ou de nossas aspirações não concretizadas em face da realidade, sempre será difícil — se não impossível — alcançar a felicidade duradoura nesta vida. Nenhuma resolução de Ano Novo pode consertar isso. E mesmo que sua dor seja como uma pedra em seu sapato, ela é tão sagrada quanto qualquer momento de felicidade que você possa viver. Ela pode até servir como um lamento pela condição caída do mundo.
Esta, meus amigos, é a santidade que existe em nossa infelicidade.
Desde minhas mais tenras lembranças, sempre fui uma discípula fiel do evangelho da prosperidade emocional. Abracei o mito de que eu tinha de sentir que a minha vida era boa, gratificante e significativa para ser abençoada. Mas vim a perceber que o simples fato de eu existir como uma filha amada de Deus — poder vê-lo e viver com ele, lutar com ele e saber que ele está sempre comigo — é em si o maior presente de todos.
Nossa retidão não é uma moeda de troca para bênçãos, e Deus não é um meio para algum fim egoísta — ele é o fim. Ele é o Caminho, e Ele nos basta.
Adaptado de [Santa infelicidade], de Amanda Held Opelt. Palestrante, compositora de músicas e autora do livro [Um buraco no mundo: encontrando esperança em ritos de luto e de cura].