Categoria: Artigos
Data: 13/03/2025
“[...] Caia sobre nós o seu sangue e sobre nossos filhos.” (Mt 27.25)

Um dos relatos mais dramáticos e aterradores nas Escrituras Sagradas, descrito com certa minúcia de detalhes, é o julgamento de Cristo pelo Governador Pilatos diante das maiores autoridades judaicas à época. Os evangelistas contam a história, mas apenas Mateus registra que a mulher do Governador mandou avisá-lo da seguinte forma: “Não te envolvas com esse justo; porque hoje, em sonho, muito sofri por seu respeito” (Mt 27.19). A impiedade daquele governante era indescritível a tal ponto de Lucas registrar “a respeito dos galileus cujo sangue Pilatos misturara com os sacrifícios que os mesmos realizavam” (13.1). No entanto, na tentativa de se livrar da responsabilidade envolvida na execução de um homem reconhecidamente inocente, uma vez que o Governador “sabia que, por inveja, o tinham entregado” (18), mandou “vir água, lavou as mãos perante o povo, dizendo: Estou inocente do sangue deste justo; fique o caso convosco!” (24b). “Nenhuma oração mais terrível está registrada na história da humanidade”, conclui Ellicott.1

Sem dúvidas, essa uma das declarações mais insolentes em toda a Bíblia. O povo, insuflado pelos sacerdotes e anciãos, clamou “em altas vozes pela crucificação de nosso Senhor; e, afinal, assumiram sobre si mesmos toda a culpa pela morte dEle, com palavras de gravíssima significação”, acentua o Bispo Ryle.2 Cabe aqui destacar algumas poucas e preciosas lições:

Primeira, atos inconsequentes podem selar juízos definitivos. Nem sempre, a insensatez cometida é punida tão radicalmente assim. A maioria das vezes não, uma vez que Deus é misericordioso para perdoar pecadores que humildemente reconhecem suas faltas e lhe pedem perdão. Mas, quando há contumácia envolvida, endurecimento carnal indevido, a situação se agrava enormemente. Hendriksen ao comentar o presente texto observa que “ao rejeitar publicamente o Messias, o povo judeu cessa de ser, em qualquer sentido especial, o povo de Deus”.3 Nunca foi proveitoso endurecer a cerviz (Pv 29.1).

Segunda, os juízos divinos nem sempre acontecem da noite para o dia. Muitos daquela geração provavelmente não estavam mais vivos no ano 70 d.C. quando, depois de quatro anos de cerco implacável pelos romanos, a cidade santa foi impiedosamente arrasada e os judeus foram espalhados pelo mundo na chamada Diáspora. Desde a insolente e atrevida resposta do povo diante de Pilatos passou-se quase quarenta anos. Muitas vezes aqueles que pecam ficam contando os dias, as semanas, os meses e até os anos para ver se vai acontecer alguma coisa como consequência da desobediência. Imprevisivelmente, um dia a conta chega e como no texto em questão alcança até os filhos. Isso deve gerar temor no coração dos pais. Fazendo as contas, todas as pessoas com um pouco mais de trinta anos, nascidas naqueles dias em Jerusalém, foram punidas severamente, algumas até com a morte, sem terem culpa alguma. Foi a insolência dos pais, diz o texto, que atraiu o juízo.

Terceira, a forma como são processados os juízos divinos é imprevisível. Os horrores relatados pelos historiadores acerca do acontecido são extremamente chocantes. Que sejamos poupados de lê-los.4 Quando aqueles homens sujaram as mãos com sangue, sem medir as consequências e atrevidamente assumiram o crime, o Altíssimo silenciosamente respondeu dos céus: “Seja feita a vossa vontade!” Sobre o castigo pelo pecado voluntário escreve o escritor sagrado: “Horrível cousa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hb 10.31).
Como diria o Bispo Ryle, que todos nós tomemos tal exortação como uma imprecação vinda dos
céus: “Não suje as suas mãos com sangue. Pense nos seus filhos!”


1 ELLICOTT In: CHAMPLIN, Russell N. O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo (Vol. 1).
São Paulo: Millenium, 1982, p.625.
2 RYLE, J.C. Meditações no Evangelho de Mateus. São Paulo: Fiel, 1991, p.247.
3 HENDRIKSEN, W. Mateus (volume 2). São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p.642.
4 EUSÉBIO DE CESARÉIA. História Eclesiástica. Rio de Janeiro: CPAD, 1999, pp.84-88. O relato de Flávio Josefo em Guerras dos judeus é imensuravelmente mais nauseante.

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Autor: Rev. João Eiró   |   Visualizações: 34 pessoas
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